
Do mesmo modo como a linguagem visual contemporânea trabalha com camadas sobrepostas de resignificação de conteúdo, a utilização de máscaras é bastante antiga na cultura global. Muito se fala das divergências culturais e simbólicas entre oriente/ocidente, mas através da máscara encontramos um ponto comum da raiz humana que identificou este traço do julgamento estético que soma símbolos a fim de se alterar as relações entre os particulares e os universais.
Na Grécia Antiga, Téspis invadiu uma cerimônica religiosa com uma máscara de Dionísio e criou este dilema que fica entre a profanação do sagrado e a sacralização do humano.
Na filosofia da pós-modernidade existe a construção de termos que ajudam a reflexão deste fenômeno. O pastiche e a esquizofrenia. O primeiro trata de uma representação desinteressada, ou seja, sem compromisso com aquilo que é mimetizado. A máscara é de Dionísio, mas não se espera que as pessoas acreditem que um dos deuses encontra-se entre eles, mas ainda assim alguns atributos simbólicos desta matriz divina são percebidos. A esquizofrenia, do grego fender/clivar+espírito, ou seja, uma desordem da linguagem ocasionada a partir de uma deficiência infantil ao domínio da fala e da linguagem, segundo a psicanálise, parece ser incorporada na cultura de modo que sabemos lidar com esta sobreposição de referências humana/divina.
Aparece em voga este tipo de construção artística como um dos elementos da arte urbana e do design digital que se apropria de superfícies de linguagem dispostas de forma que desintegra o significado e o reconstrói continuamente, seja em sua relação com o espaço ou com o tempo.
Esta estrutura estética pode também extrapolar-se para a vida, em que o processo colaborativo de construção de conhecimento agrega estas diferentes camadas representativas da diversidade dos homens e que pode romper com o individualismo radical da década de 60, que sacraliza o gozo sem proibições, a cultura do tudo já, nas palavras de Lipovestky.
Tudo ainda não foi posto à mesa, mas algumas indicações já possibilitam a identificação de constelações que podem indicar para onde rumamos. Resta caminhar.