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28
set
09

Os dilemas do trabalho no limiar do século 21

Do subemprego à exploração infantil, a situação contemporânea do trabalho exige uma reflexão à altura daquela relacionada ao meio ambiente

Dossiê: Ricardo Antunes | Revista CULT 139 ____hyperlink

Se há um tema que está sempre presente nos debates atuais, junto com a destruição ambiental, esse tema é o do trabalho e seu corolário, o desemprego. Isso porque também não há nenhum país que, em alguma medida, não esteja vivenciando o desmoronamento do trabalho.

Em plena eclosão da mais recente crise financeira, estamos constatando a corrosão do trabalho contratado, a erosão do emprego regulamentado, que foi dominante no século 20 e que está sendo substituído pelas diversas formas alternativas de trabalho e subtrabalho, de que são exemplo o “empreendedorismo”, o “trabalho voluntário”, o “cooperativismo”, modalidades que frequentemente “substituem” o trabalho formal, gerando novos e velhos mecanismos de intensificação e mesmo autoexploração do trabalho.

Os modos de precarização do trabalho, o avanço tendencial da informalidade, o desemprego dos imigrantes, tudo isso acentua o tamanho da tragédia social em que estamos envolvidos. O emprego assalariado formal, modalidade de trabalho dominante no capitalismo da era taylorista e fordista, que magistralmente Chaplin satirizou em Tempos modernos, está se exaurindo e sendo substituído por formas de trabalho que em alguns casos se assemelham às da fase que marcou o início da Revolução Industrial. Senão, como explicar, em pleno século 21, as jornadas de trabalho que, em São Paulo, chegam a 17 horas por dia? Tudo isso nos obriga a refletir: que trabalho queremos, de que trabalho necessitamos?

Trabalho como atividade vital

Aqui, devemos fazer uma pequena digressão. Sabemos que o trabalho, concebido como atividade vital, nasceu sob o signo da contradição. Desde o primeiro momento, foi capaz de plasmar a própria sociabilidade humana, por meio da criação de bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas também trouxe dentro dele, desde seus primeiros passos, a marca do sofrimento, da servidão e da sujeição. Ao mesmo tempo em que expressa o momento da potência e da criação, o trabalho também se originou nos meandros do ” tripalium”, instrumento de punição e tortura.

Se era, para muitos, dotado de uma ética positiva (ver as análises de Weber), própria do mundo dos negócios (cujo significado etimológico é negar o ócio), para outros, ao contrário, tornou-se um não valor, estampado na magistral síntese de Marx: “Se pudessem, os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!”.

Mas o século 20 moldou-se pela estruturação da chamada sociedade do trabalho, em que desde muito cedo fomos educados para o princípio fundante do trabalho. Esse cenário começou a ruir, no entanto, a partir dos últimos 20 anos. Tragicamente, quanto mais a população vem aumentando, menor é a capacidade de incorporar os jovens ao mercado de trabalho. Esta é a situação que vivenciamos hoje: não encontramos empregos para aqueles que dele necessitam para sobreviver e os que ainda estão empregados em geral trabalham muito e não ficam um dia sem pensar no risco do desemprego. Esse medo ocorre não só na base dos assalariados, pois essa tendência cada vez mais avança na ponta da pirâmide social, chegando até os gestores.

Foto: Creative Commons

Outro lado: relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT)
projeta mais de 50 milhões de desempregados em 2009

Desemprego

Uma rápida consulta aos dados acerca do desemprego mundial é esclarecedora. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em recente relatório, projetou mais de 50 milhões de desempregados ao longo deste ano de 2009, em consequência da intensificação da crise que atingiu especialmente os países do Norte. A mesma OIT acrescentou ainda que aproximadamente 1,5 bilhão de trabalhadores sofrerão redução em seus salários ( Relatório mundial sobre salários 2008 – 2009).

Na China, país que mais intensamente cresceu na última década, com quase 1 bilhão de trabalhadores, cerca de 26 milhões de trabalhadores que migraram do campo para as cidades perderam seus empregos, gerando a onda de revoltas a que assistimos atualmente.

A América Latina também não ficou de fora desse cenário: a mesma OIT antecipou que, dada a ampliação da crise, “até 2,4 milhões de pessoas poderão entrar nas filas do desemprego regional em 2009″, somando-se aos quase 16 milhões hoje desempregados, sem falar do “desemprego oculto” e outros mecanismos que mascaram as taxas reais de desemprego ( Panorama laboral para América Latina e Caribe, janeiro de 2009 ).

No limite da degradação

Dentro de um contexto marcado por uma profunda crise estrutural, ampliam-se, portanto, as formas de aviltamento do trabalho.

Foto: Creative Commons

Degradação: trabalhadores imigrantes em
jornadas que atingem até 17 horas diárias

Foto: Creative Commons

Degradação: trabalhadores imigrantes em

jornadas que atingem até 17 horas diárias

Os exemplos são abundantes e o espaço aqui seria por demais limitado. Mas podemos emblematicamente apresentar alguns casos mais expressivos.

A cada dia vemos mais e mais exemplos de trabalho escravo no campo; nos agronegócios do açúcar, no etanol de Lula, cortar mais de 10 toneladas de cana por dia é a média por baixo, low profile. No norte do país esse número pode chegar a até 18 toneladas diárias.

Em São Paulo, não é difícil localizar a degradação dos trabalhadores imigrantes, como os bolivianos, subempregados nas empresas de confecção, com jornadas que atingem até 17 horas diárias, configurando uma modalidade de trabalho no limite da condição degradante. E os exemplos se esparramam por todas as partes do mundo: chicanos (EUA), dekasseguis (Japão), gastarbeiters (Alemanha), lavoro nero (Itália) etc.

No Japão, jovens operários migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cápsulas de vidro do tamanho de um caixão. Configuram o que já chamei de operários encapsulados. Na América Latina, trabalhadoras domésticas chegam a trabalhar 90 horas por semana, tendo não mais que um dia de folga ao mês, conforme lembrou Mike Davis em seu Planeta favela (Boitempo, 2006).

Se, no século passado, os povos do Norte migraram em massa para o Sul do mundo (como os italianos, alemães, portugueses, espanhóis, tão bem acolhidos no Brasil), estamos presenciando o exato inverso. Nesse sentido, exemplos recentes na Espanha, nos EUA e na Inglaterra, contra os brasileiros, são por demais expressivos.

Outra manifestação, ainda que diferenciada, é também esclarecedora: trabalhadores britânicos em greve, no início de 2009, empunhavam um cartaz que dizia: “Empreguem primeiro os trabalhadores britânicos”, em manifestação contrária à contratação de italianos e portugueses. Se é justíssima a reivindicação de salário igual para trabalho igual, para se contrapor à tendência destrutiva dos capitais de explorar o imigrante carente de trabalho, é repulsiva a manifestação que estampe qualquer traço xenófobo contra trabalhadores imigrantes.

O fenômeno é curioso: em plena apologética da assim chamada “globalização”, os capitais transnacionais podem fluir e viajar livremente, enquanto o trabalho imigrante encontra-se cada vez mais cerceado e tolhido. Talvez pudéssemos dizer que, enquanto os capitais transnacionais são livres em seus voos e saques, os trabalhadores imigrantes devem se manter cativos.

O trabalho jovem

São essas algumas das forças que moldam o mundo do trabalho hoje. Mas existe ainda um outro ponto – dentre tantos – que podemos lembrar, para concluir. Sendo a CULT uma publicação que tem nos jovens um público importante, vale a pena fazer uma nota geracional: poucos jovens hoje conseguem emprego nas carreiras que escolheram. Quando têm qualificação, perambulam de um emprego a outro até chegar – se conseguirem – ao que pretendiam inicialmente. Quando lhes falta o capital cultural, aí a empreitada é mais difícil. Para conseguir emprego, são “obrigados” a realizar trabalhos “voluntários”. Ou o que é ainda mais frequente: a explosão do trabalho do estagiário, que se converte em um trabalho efetivo com sub-remuneração.

Se a ordem societal dominante dificulta o acesso dos jovens em idade de trabalhar, ela inclui, por outro lado, precoce e criminosamente crianças no mercado de trabalho, não somente no Sul, mas também nos países capitalistas avançados. Pouco importa que o trabalho hoje seja supérfluo e que centenas de milhões de assalariados em idade de trabalho se encontrem em desemprego estrutural. Os capitais globais frequentemente recorrem ao corpo produtivo das crianças, que deveriam estar exercitando seu corpo brincante (na conceitualização de Maurício da Silva). E esse retrato se amplia quando estudamos a produção de sisal, de têxtil e confecções, calçados, cana-de-açúcar, carvoarias, pedreiras, olarias, emprego doméstico etc.

Por fim, outra contradição social cada vez mais vital: se os empregos se reduzem, aumentam os índices de desemprego, empobrecimento e miserabilidades social – realidade em que bilhões hoje vivem com menos de 2 dólares por dia. Se, como resposta, os capitais globais e suas transnacionais recuperarem os níveis de crescimento, como fez a China na última década, o aquecimento global nos converterá no mundo da torrefação. Trabalho e aquecimento global serão, portanto, os grandes dilemas do século 21.

14
mai
09

TICs e desenvolvimento

O cenário proporcionado pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) geram, constantemente, muita expectativa sobre suas possibilidades de transformação social a medida em que cada vez mais pessoas integram e colaboram em sua comunidade global de usuários, mas ao mesmo tempo observa-se muita confusão, particularmente com relação à internet, ao lhe atribuirmos características que não a de mera ferramenta.  A internet, portanto, não gera desenvolvimento ou conhecimento.  Estas condições são proporcionadas pelo uso que fazemos dela.

A diversidade de contextos em que as TICs, atualmente, são empregadas também traz complexidade ao debate.  Países grandes, pequenos, desenvolvidos e em desenvolvimento apresentam realidades tão heterogêneas que torna praticamente inviável a formulação de juízos universais frente a tantas particularidades.  A partir de perspectivas e previsões distintas podem-se observar aspectos positivos e negativos pela utilização destas ferramentas, principalmente pela falta de regulamentação e pelo desconhecimento de seus reais limites.

Falar em aspectos negativos ou positivos da utilização da internet trata-se, portanto, de falar do uso que as pessoas fazem de suas potencialidades.  Ações que provêem acesso às TICs em países em desenvolvimento não podem se limitar a fornecer computador e conexão à internet sem a devida capacitação emancipatória dos usuários, ou, segundo termo utilizado pela União Européia: prover Literacia Midiática[1].  A literacia tem a ver com a fácil ambientação em diferentes suportes de mídia oferecidos pela internet, seu uso ativo, crítico e criativo, a compreensão de sua cadeia produtiva e de seus limites.

Atribuir juízos às conseqüências do emprego da internet, portanto, tem relação apenas com aqueles que a utilizam.  Buscar informações para a construção de uma bomba caseira e aplicá-la em um atentado à segurança das pessoas é um aspecto negativo em qualquer situação geopolítica, assim como o acesso a leitura de uma obra de Platão é positivo.  É muito comentado, como aspecto positivo, a diminuição de assimetrias pelo livre acesso à informação propiciado pela internet, mas se confrontarmos usuários com distintas capacidades de literacia esta assimetria se acentua.

Discriminar situações entre ricos e pobres com base em conceitos mal formados e superficiais é preconceito.  Exigir igualdade entre aqueles que são desiguais é injustiça.

A evolução das TICs explicita o que o movimento ambientalista já anunciava: fazemos parte de uma aldeia global.  Ainda faz sentido falarmos em países desenvolvidos e países em desenvolvimento?  É inegável que os benefícios da utilização potencial da internet superam seus malefícios, portanto é adequado ao debate criar condições para que as ações resultantes deste uso reflitam estas potencialidades.

A criação, o compartilhamento e a colaboração propiciados pelo desenvolvimento das TICs, a medida que geram valor agregado pela diversidade abarcada pela internet também expõe o desafio de lidarmos com a diversidade, e com todo o conflito cultural que ela implica. 

Para a internet a diversidade é a riqueza e cabe a nós o desafio individual e coletivo de abrirmos nossos braços a ela, sem preconceitos e injustiças.  Esta é a premissa que deve pautar o debate.  Aspectos técnicos, jurídicos e éticos, devem se adequar para a constante evolução das ações propiciadas pela internet, afinal o principal aspecto negativo deste processo é a homogeneização daqueles que a utilizam.

22
jan
09

Islands and bridges, diversity and semantics

by:
Guilherme Marin e Paulo Edison de Oliveira Indio
translation: Guilherme Marin

In times of network social organization through constant technological improvement of Internet, many conflicts accumulate around the sharing and production of audiovisual content. For the discussion of issues for which we do not have solution it was created the Internet Governance Forum – IGF, which, in its third edition in the year 2008, was held in the city of Hyderabad, India.

The collective imaginary often associates the Internet to an anarchic model of free expression of ideas and exchange of content, therefore, when joining a certain group of people for the debate about the bases and the establishment of rules immediately comes to mind the western positivist model social contract.

Generously was curated the tables of discussion that sought further three themes about the challenge of inclusion of the next billion users on the global Internet, the difficulties of access and infrastructure that will require this inclusion, and yet, how this process is dealing with such human diversity of languages that are not representative as posted contents if compared with a limited number of languages that prevail on the web.

Among these issues there are fundamental questions such as: Include for what? Included in the service of whom? The creation of infrastructure to meet which market demand? The standardization of a language serves the interests of which countries and areas of knowledge?

Humanity is immersed in an economic, historical and social crisis, and is going through a period in which the model of society based on consumption and the ideal of social organization are discredited, while we comfortably watch the trivialization of life and inhumanity in economic relation basis.  The network relations, both economic and social, are part of modern society and have been providing, through internet, the space for the exchange of knowledge among the diversity of people that constitute humanity.

According to estimative, humanity should reach the significant mark of one billion users of Internet in 2009, therefore, the time is appropriate to reflect a global ethic from what we already observed in these early stages of consolidation of social transnational networks and we must ask ourselves about the challenges we will face in the process of inclusion of the next billion users.  It is important to discuss how we can share this space with the next generation who will be joining the network communities, produce texts, podcasts and videos globally distributed in channels connected to the mobile, the internet and digital TV.

The meeting of such diversity of cultures inevitably have some impacts, while we lose the special reference between west and east, center and periphery, and we began to identify ourselves, conceptually, as networks.  The contemporary economy, according to geographer Milton Santos, is organized in networks, however, demand is defined from the external to the internal, and the marketing campains through mass propaganda brings an interference on the ideal of society towards the standardization of social aims and behaviors.  It is the suppression of culture, local knowledge and external dependency that generates concentration of intellectual properties, income, exploitation and misery.

The future requires us to seek solutions that act in mediation for purposes of balance, as opposed to the negotiation model used predominantly in Western culture, which favors situation an umbalance and can easily be seen by analysis of the infrastructure for connection on the poorest regions of the planet, whose precariousness increase the cost of alternative technologies more sophisticated. Unfairly we live a model where the costs of products and services are much higher for those who can not afford it, the largest part of world population.  We must remember that there is no lack of examples of foreign investment for “development” that generated at the same time dependence, standardization of consumption and relationships.  In Latin America, for instance, the historical process of importing technology rather than producing technology, make the region dependent on international affairs increasing poverty and concentration of wealth. Any investment should be mediated, there is a need to think of what are the main socio-environmental consequences and who will be benefited by it in the long term.

Besides the technical and physical aspects relating to accessibility, we have to face the challenge of producing content that really identifies this diversity. According to this point the choice of India as host of the IGF-2008 was also very appropriate because of its population size and cultural miscellanea of their billion of speakers distributed in several languages from each region of the country.

The disruption of spatiality, as established, nears the rural and urban, the materialism and the spiritualism, and the concept of value have never been so distant from the icon of the money as it is at this precise historic moment.  We must access the significance of the precious traditional knowledge of ancient cultures, its orality, its mythology, language and arts, are priceless and historically developed by the human ancestors.  In this new context of the global network, the concept of humanity becomes more meaningful. After all, are all men and women of this world participants of this community called humanity?

What attracts on the Internet is the possibility of accessibility of collaborated knowledge built on a number of countries. The scope of the database and applications available will have a direct relationship with the ability of individuals to move in different languages, today with preponderance of the English language.

Countries such as Burkina Faso, who adopted as the official language a language other than that which keeps the traditional knowledge of its population, have very sensitive cases, as most of the communication between citizens is given by the tradition that holds the knowledge of their oral culture. Few are the languages that were transcribed in traditional characters compatible with the computer interfaces available. This is very the primary base of the internet, to provide knowledge.

There must be created cyberspaces where users can recognize and identify themselves. Only then there can be generated affinity and proliferate the production of content, locally. The audiovisual production assumes importance as a fundamental instrument for the registering of oral and body language that are capable held organized communities, and also enable direct communication between the geographically isolated spots, who share cultural identities. The Internet is based not only on production of knowledge, but the interactivity is what builds critics and communities from the posted content.

The fear lies in the fact whether there will exist an effort in this direction or we will maintain the Western Enlightenment logic that seeks to establish a priori forms covering the entire experience.  In a world where cultural diversity is increasingly striking us, we can not even think of totalizing models because that move towards injustice.

Our historical moment demands respect, solidarity and ethics. We shall not trivialize these words, because we live an emergency on environmental and social issues, and the overall way of life becomes part of everyday kinetics of each individual person on the planet. Personal relationships in virtual environment should seek break this pattern of mass culture that we live often encouraged by governments and companies that have within themselves, whether in the bureaucracy or in the industrial production process, the standardization of numerous repetitions each identical to the other in order to gain efficiency , reduce time and costs.

People can not be summarized by forms or processes. The road to cultural preservation and dissemination must provide balance and respect for the free choice of the Internet user.  The lack of content in traditional languages in Burkina Faso keeps people off the Internet. The teaching of the French rather then the Mòore or the Dyula will not result on effective inclusiveness, but on the exclusion of Burkina-Faso’s cultural identity from the web and thus turn impossible the empowerment of the cyberspace by its population.

It is necessary that government, companies and NGO’s, join collaborative efforts so that contents and applications become available to all.

Local society has to participate promoting organized actions to guarantee empowerment to the main actors in the cause of a more just global society, with respect for differences, and the Internet is an important tool that enables the production and access to knowledge from all and to all.

21
jan
09

Ilhas e pontes, diversidade e semântica

por:
Guilherme Marin e Paulo Edison de Oliveira Índio

Em tempos de organização social em rede através do constante aprimoramento tecnológico da internet, muitos conflitos de interesse se acumulam em torno do compartilhamento e da produção de conteúdos audiovisuais.  Para a discussão de temas para os quais ainda não temos solução foi criado o Fórum Internacional de Governança na Internet – IGF, que, em sua terceira edição no ano de 2008, foi realizado na cidade de Hyderabad, Índia.

O imaginário coletivo associa, muitas vezes, a internet a um modelo anárquico de livre expressão de idéias e intercâmbio de conteúdos, portanto, ao reunirmos certo grupo de pessoas que debatem acerca de bases para a constituição de regras logo vem à mente o modelo ocidental positivo de contrato social.

Generosa foi a curadoria das mesas de debate que buscou aprofundar três eixos temáticos embasados no desafio da inclusão do próximo bilhão de usuários globais na internet, nas dificuldades de infra-estrutura de acesso que essa inclusão implicará e, ainda, como se dará este processo no trato de tamanha diversidade humana em que um universo lingüístico não encontra representatividade de conteúdos frente a um número restrito de idiomas que prevalecem na web.

Entre as questões fundamentais estão algumas perguntas como, por exemplo: Incluir para quê? Inclusão a serviço de quem? A criação de infra-estrutura atende a demanda de que mercado? A padronização de um idioma serve aos interesses de quais áreas do conhecimento e países?

A humanidade imersa em crise econômica, histórica e social, vive um período em que o modelo de sociedade de consumo e o ideal de organização social se encontram  desacreditados, enquanto se assiste confortavelmente a banalização da vida e a desumanidade nas relações de mercado. As relações em rede, tanto econômica como social, fazem parte da sociedade moderna, não obstante podemos dizer que a web está consolidada como uma ferramenta essencial para a troca de conhecimento entre a diversidade de povos que constituem a humanidade.

Segundo previsões deveremos atingir a expressiva marca de um bilhão de usuários de internet em 2009, portanto, é o momento apropriado para refletir uma ética global a partir do que já observamos nestes primeiros passos de consolidação de redes sociais transnacionais e devemos nos perguntar sobre os desafios que deveremos enfrentar no processo de inclusão do próximo bilhão de usuários.  É importante discutirmos como podemos partilhar este espaço com os próximos que se juntarão a redes, produzirão textos, podcasts e vídeos distribuídos em canais globalmente conectados como o celular, a internet e a TV digital.

O encontro de culturas tão diversas produz choques, inevitavelmente, ao passo que perdemos a referência espacial entre ocidente e oriente, periferia ou centro, e passamos a nos identificar conceitualmente enquanto redes. A economia contemporânea, segundo o geógrafo Milton Santos, se organiza em rede, todavia, a demanda é definida do externo para o interno, ou seja, o mercado por meio da intensa propaganda massifica o ideal de sociedade construindo quase que hegemonicamente um modelo social padrão. É a supressão da cultura, do conhecimento local e a dependência externa que gera concentração de renda, apropriação de conhecimento, exploração e miséria.

O futuro nos obriga a buscar soluções que atuem em mediação com fins de equilibrar, em oposição ao modelo da negociação predominantemente utilizado na cultura ocidental, que favorece o aparecimento de assimetrias e pode facilmente ser observado pela análise da infra-estrutura de conexão das regiões mais carentes do planeta, cujas precariedades aumentam o custo por tecnologias alternativas mais sofisticadas.  Injustamente vivemos um modelo em que o custo de produtos e serviços é extremamente maior para os que menos podem pagar, o caso da maior parcela da população mundial. Devemos lembrar que exemplos não faltam de investimentos externos que geraram desenvolvimento e ao mesmo tempo dependência, padronizações de consumo e relacionamentos. Na America Latina, por exemplo, viveu-se um processo histórico de importação de tecnologia em invés de investimentos na produção tecnológica, tornando-a dependente dos acordos e regras da política econômica internacional que gera miséria e concentração de riquezas.  Não defendemos o isolamento econômico, investimentos internos devem ser mediados, existe a necessidade de pensar o que, como, quais as principais conseqüências sócio-ambiental e quem se beneficiará no longo prazo por esse investimento.

Afora lançarmos a atenção a aspectos técnico-físicos relativos a acessibilidade, nos obrigamos a enfrentar o desafio de produção de conteúdo que identifique realmente esta diversidade.  Neste aspecto a escolha da Índia como anfitriã do IGF também foi muito apropriada devido a grandeza populacional e da miscelânea cultural de seu bilhão de falantes distribuídos em diversas línguas particulares de cada região do país.

O rompimento do padrão espacial estabelecido aproxima o rural e o urbano, o materialismo e o espiritualismo, e nunca a noção de valor foi tão distanciada do ícone do dinheiro como no momento histórico em que vivemos.  Devemos avaliar a importância dos preciosos conhecimentos tradicionais de culturas longevas, sua oralidade, sua mitologia, línguas e artes, são de valor inestimável desenvolvido historicamente pela ancestralidade humana.  Neste novo contexto de rede global, o conceito de Humanidade ganha em significado.  Afinal, todos os homens e mulheres do planeta são partícipes desta comunidade chamada Humanidade?

O que atrai na internet é a possibilidade de acesso a conhecimentos construídos em um sem número de países.  A abrangência do banco de dados e de aplicativos disponibilizado terá relação direta com a capacidade de cada indivíduo de transitar em diversas línguas, hoje com preponderância para o inglês.

Países, como Burkina Faso, que adotaram como língua oficial um idioma diferente daquele que guarda o conhecimento tradicional de sua população, apresentam casos bastante sensíveis, visto que a maior parte da comunicação entre os cidadãos se dá pela tradição que detém o conhecimento oral de sua cultura.  Poucas são as línguas tradicionais que foram transcritas em caracteres compatíveis com as interfaces existentes.  Trata-se de disponibilizar conhecimento e esta é a base funcional da própria internet.

É necessário criar ciberespaços em que os usuários se identifiquem e se reconheçam.  Só assim é possível gerar interesse e proliferar a produção de conteúdo, localmente.  O recurso audiovisual assume fundamental importância enquanto instrumento de registro da oralidade e da linguagem corporal e é capaz de agregar comunidades, além de possibilitar a comunicação direta entre pontos isolados geograficamente, mas que partilhem identidades culturais. A internet é baseada não só na produção de conhecimento, mas na interatividade que constrói críticas e comunidades a partir dos conteúdos postados.

O receio reside no fato de sabermos se haverá catalização de esforços nesta direção ou se manteremos a lógica ocidental iluminista que busca estabelecer formas a priori que abranjam a totalidade das experiências.  Ora, num mundo em que a diversidade cultural está cada vez mais surpreendente, não é possível pensarmos em modelo totalizante porque assim caminhamos rumo à injustiça.

Nosso momento histórico exige respeito, solidariedade e ética.  Não banalizemos estas palavras, pois vivemos emergências ambientais, sociais e econômicas, em que o modo de vida global passa a fazer parte da cinética cotidiana individual de cada pessoa do planeta.  As relações pessoais em ambiente virtual devem buscar romper este padrão de massificação cultural que vivemos muitas vezes estimuladas por governos e empresas que têm dentro de si, na burocracia e no projeto industrial, a padronização de inúmeras repetições umas idênticas às outras a fim de ganhar eficiência, reduzir tempo e custos.

Pessoas não podem se resumir a fichas e processos.  O caminho para a preservação e difusão cultural deve respeitar um equilíbrio e propiciar a livre escolha do usuário da internet.  A falta de conteúdo em línguas tradicionais em Burkina Faso mantém as pessoas fora da internet.  O ensino de francês aos falantes de Mòore ou Dyula não resultará em um efeito inclusivo, mas na exclusão da identidade cultural burkinense da web e desta forma impossibilitará a apropriação do ciberespaço por sua população.

É necessário esforço governamental, de empresas e da sociedade civil organizada nesta trajetória de construção e colaboração para que conteúdos e aplicativos sejam disponibilizado de modo igualitário.

A sociedade local tem que participar e conseqüentemente se mobilizar para atuarem como protagonistas na construção de uma sociedade global mais justa com respeito a diferenças, sendo a internet uma ferramenta que possibilita a produção e acesso ao conhecimento de todos e a todos.

18
jan
09

Artigo Burkina Faso 1a. Parte (português)

Em tempos de organização social em rede através do constante aprimoramento tecnológico da internet, percebemos que muitos conflitos de interesse se acumulam em torno do compartilhamento e da produção de conteúdos audiovisuais.  Para a discussão de temas para os quais ainda não temos solução foi criado o Fórum Internacional de Governança na Internet – IGF, que, em sua terceira edição no ano de 2008, foi realizado na cidade de Hyderabad, Índia.

O imaginário coletivo associa, muitas vezes, a internet a um modelo anárquico de livre expressão de idéias e intercâmbio de conteúdos, portanto, ao reunirmos certo grupo de pessoas que debatem acerca de bases para a constituição de regras logo vem à mente o modelo ocidental positivo de contrato social.

Generosa foi a curadoria das mesas de debate temático que buscou aprofundar três eixos temáticos embasados no desafio da inclusão do próximo bilhão de usuários globais na internet, nas dificuldades de infra-estrutura de acesso que essa inclusão implicará e, ainda, como se dará este processo no trato de tamanha diversidade humana em que um universo lingüístico não encontra representatividade de conteúdos frente a um número restrito de idiomas que prevalecem na web.

Segundo previsões deveremos atingir a expressiva marca de um bilhão de usuários de internet em 2009, portanto, é o momento apropriado para refletir uma ética global a partir do que já observamos nestes primeiros passos de consolidação de redes sociais transnacionais e devemos nos perguntar sobre os desafios que deveremos enfrentar no processo de inclusão do próximo bilhão de usuários.  É importante discutirmos como podemos partilhar este espaço com os próximos que se juntarão a redes, produzirão textos, podcasts e vídeos distribuídos em canais globalmente conectados como o celular, a internet e a tv digital.

O encontro de culturas tão diversas produz, inevitavelmente, choques ao passo que perdemos a referência espacial entre ocidente e oriente, periferia ou centro, e passamos a nos identificar conceitualmente enquanto redes.  O futuro nos obriga a buscar soluções que atuem em mediação com fins de equilibrar, em oposição ao modelo da negociação predominantemente utilizado na cultura ocidental, que favorece o aparecimento de assimetrias gritantes devido à propagação cumulativa da margem de erro da negociação às camadas mais distantes dos centros de decisão e pode facilmente ser observado pela análise da infra-estrutura de conexão das regiões mais carentes do planeta, cuja precariedades aumenta o custo por tecnologias alternativas mais sofisticadas.  Injustamente vivemos um modelo em que o custo de produtos e serviços é extremamente maior para os que menos podem pagar, o caso da maior parcela da população mundial.

Afora lançarmos a atenção a aspectos técnico-físicos relativos a acessibilidade, nos obrigamos a enfrentar o desafio de produção de conteúdo que identifique realmente esta diversidade.  Neste aspecto a escolha da Índia como anfitriã do IGF também foi muito apropriada devido a grandeza populacional e da miscelânea cultural de seu bilhão de falantes distribuídos em diversas línguas particulares de cada região do país.

O rompimento do padrão espacial estabelecido aproxima o rural e o urbano, o materialismo e o espiritualismo, e nunca a noção de valor foi tão distanciado do ícone do dinheiro como no momento histórico em que vivemos.  Devemos avaliar a importância dos preciosos conhecimentos tradicionais de culturas longevas, sua oralidade, sua mitologia, línguas e artes são de valor inestimável.  Neste novo contexto de rede global, o conceito de Humanidade ganha em significado.  Afinal, todos os homens e mulheres do planeta são partícipes desta comunidade chamada Humanidade?




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