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28
set
09

Os dilemas do trabalho no limiar do século 21

Do subemprego à exploração infantil, a situação contemporânea do trabalho exige uma reflexão à altura daquela relacionada ao meio ambiente

Dossiê: Ricardo Antunes | Revista CULT 139 ____hyperlink

Se há um tema que está sempre presente nos debates atuais, junto com a destruição ambiental, esse tema é o do trabalho e seu corolário, o desemprego. Isso porque também não há nenhum país que, em alguma medida, não esteja vivenciando o desmoronamento do trabalho.

Em plena eclosão da mais recente crise financeira, estamos constatando a corrosão do trabalho contratado, a erosão do emprego regulamentado, que foi dominante no século 20 e que está sendo substituído pelas diversas formas alternativas de trabalho e subtrabalho, de que são exemplo o “empreendedorismo”, o “trabalho voluntário”, o “cooperativismo”, modalidades que frequentemente “substituem” o trabalho formal, gerando novos e velhos mecanismos de intensificação e mesmo autoexploração do trabalho.

Os modos de precarização do trabalho, o avanço tendencial da informalidade, o desemprego dos imigrantes, tudo isso acentua o tamanho da tragédia social em que estamos envolvidos. O emprego assalariado formal, modalidade de trabalho dominante no capitalismo da era taylorista e fordista, que magistralmente Chaplin satirizou em Tempos modernos, está se exaurindo e sendo substituído por formas de trabalho que em alguns casos se assemelham às da fase que marcou o início da Revolução Industrial. Senão, como explicar, em pleno século 21, as jornadas de trabalho que, em São Paulo, chegam a 17 horas por dia? Tudo isso nos obriga a refletir: que trabalho queremos, de que trabalho necessitamos?

Trabalho como atividade vital

Aqui, devemos fazer uma pequena digressão. Sabemos que o trabalho, concebido como atividade vital, nasceu sob o signo da contradição. Desde o primeiro momento, foi capaz de plasmar a própria sociabilidade humana, por meio da criação de bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas também trouxe dentro dele, desde seus primeiros passos, a marca do sofrimento, da servidão e da sujeição. Ao mesmo tempo em que expressa o momento da potência e da criação, o trabalho também se originou nos meandros do ” tripalium”, instrumento de punição e tortura.

Se era, para muitos, dotado de uma ética positiva (ver as análises de Weber), própria do mundo dos negócios (cujo significado etimológico é negar o ócio), para outros, ao contrário, tornou-se um não valor, estampado na magistral síntese de Marx: “Se pudessem, os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!”.

Mas o século 20 moldou-se pela estruturação da chamada sociedade do trabalho, em que desde muito cedo fomos educados para o princípio fundante do trabalho. Esse cenário começou a ruir, no entanto, a partir dos últimos 20 anos. Tragicamente, quanto mais a população vem aumentando, menor é a capacidade de incorporar os jovens ao mercado de trabalho. Esta é a situação que vivenciamos hoje: não encontramos empregos para aqueles que dele necessitam para sobreviver e os que ainda estão empregados em geral trabalham muito e não ficam um dia sem pensar no risco do desemprego. Esse medo ocorre não só na base dos assalariados, pois essa tendência cada vez mais avança na ponta da pirâmide social, chegando até os gestores.

Foto: Creative Commons

Outro lado: relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT)
projeta mais de 50 milhões de desempregados em 2009

Desemprego

Uma rápida consulta aos dados acerca do desemprego mundial é esclarecedora. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em recente relatório, projetou mais de 50 milhões de desempregados ao longo deste ano de 2009, em consequência da intensificação da crise que atingiu especialmente os países do Norte. A mesma OIT acrescentou ainda que aproximadamente 1,5 bilhão de trabalhadores sofrerão redução em seus salários ( Relatório mundial sobre salários 2008 – 2009).

Na China, país que mais intensamente cresceu na última década, com quase 1 bilhão de trabalhadores, cerca de 26 milhões de trabalhadores que migraram do campo para as cidades perderam seus empregos, gerando a onda de revoltas a que assistimos atualmente.

A América Latina também não ficou de fora desse cenário: a mesma OIT antecipou que, dada a ampliação da crise, “até 2,4 milhões de pessoas poderão entrar nas filas do desemprego regional em 2009″, somando-se aos quase 16 milhões hoje desempregados, sem falar do “desemprego oculto” e outros mecanismos que mascaram as taxas reais de desemprego ( Panorama laboral para América Latina e Caribe, janeiro de 2009 ).

No limite da degradação

Dentro de um contexto marcado por uma profunda crise estrutural, ampliam-se, portanto, as formas de aviltamento do trabalho.

Foto: Creative Commons

Degradação: trabalhadores imigrantes em
jornadas que atingem até 17 horas diárias

Foto: Creative Commons

Degradação: trabalhadores imigrantes em

jornadas que atingem até 17 horas diárias

Os exemplos são abundantes e o espaço aqui seria por demais limitado. Mas podemos emblematicamente apresentar alguns casos mais expressivos.

A cada dia vemos mais e mais exemplos de trabalho escravo no campo; nos agronegócios do açúcar, no etanol de Lula, cortar mais de 10 toneladas de cana por dia é a média por baixo, low profile. No norte do país esse número pode chegar a até 18 toneladas diárias.

Em São Paulo, não é difícil localizar a degradação dos trabalhadores imigrantes, como os bolivianos, subempregados nas empresas de confecção, com jornadas que atingem até 17 horas diárias, configurando uma modalidade de trabalho no limite da condição degradante. E os exemplos se esparramam por todas as partes do mundo: chicanos (EUA), dekasseguis (Japão), gastarbeiters (Alemanha), lavoro nero (Itália) etc.

No Japão, jovens operários migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cápsulas de vidro do tamanho de um caixão. Configuram o que já chamei de operários encapsulados. Na América Latina, trabalhadoras domésticas chegam a trabalhar 90 horas por semana, tendo não mais que um dia de folga ao mês, conforme lembrou Mike Davis em seu Planeta favela (Boitempo, 2006).

Se, no século passado, os povos do Norte migraram em massa para o Sul do mundo (como os italianos, alemães, portugueses, espanhóis, tão bem acolhidos no Brasil), estamos presenciando o exato inverso. Nesse sentido, exemplos recentes na Espanha, nos EUA e na Inglaterra, contra os brasileiros, são por demais expressivos.

Outra manifestação, ainda que diferenciada, é também esclarecedora: trabalhadores britânicos em greve, no início de 2009, empunhavam um cartaz que dizia: “Empreguem primeiro os trabalhadores britânicos”, em manifestação contrária à contratação de italianos e portugueses. Se é justíssima a reivindicação de salário igual para trabalho igual, para se contrapor à tendência destrutiva dos capitais de explorar o imigrante carente de trabalho, é repulsiva a manifestação que estampe qualquer traço xenófobo contra trabalhadores imigrantes.

O fenômeno é curioso: em plena apologética da assim chamada “globalização”, os capitais transnacionais podem fluir e viajar livremente, enquanto o trabalho imigrante encontra-se cada vez mais cerceado e tolhido. Talvez pudéssemos dizer que, enquanto os capitais transnacionais são livres em seus voos e saques, os trabalhadores imigrantes devem se manter cativos.

O trabalho jovem

São essas algumas das forças que moldam o mundo do trabalho hoje. Mas existe ainda um outro ponto – dentre tantos – que podemos lembrar, para concluir. Sendo a CULT uma publicação que tem nos jovens um público importante, vale a pena fazer uma nota geracional: poucos jovens hoje conseguem emprego nas carreiras que escolheram. Quando têm qualificação, perambulam de um emprego a outro até chegar – se conseguirem – ao que pretendiam inicialmente. Quando lhes falta o capital cultural, aí a empreitada é mais difícil. Para conseguir emprego, são “obrigados” a realizar trabalhos “voluntários”. Ou o que é ainda mais frequente: a explosão do trabalho do estagiário, que se converte em um trabalho efetivo com sub-remuneração.

Se a ordem societal dominante dificulta o acesso dos jovens em idade de trabalhar, ela inclui, por outro lado, precoce e criminosamente crianças no mercado de trabalho, não somente no Sul, mas também nos países capitalistas avançados. Pouco importa que o trabalho hoje seja supérfluo e que centenas de milhões de assalariados em idade de trabalho se encontrem em desemprego estrutural. Os capitais globais frequentemente recorrem ao corpo produtivo das crianças, que deveriam estar exercitando seu corpo brincante (na conceitualização de Maurício da Silva). E esse retrato se amplia quando estudamos a produção de sisal, de têxtil e confecções, calçados, cana-de-açúcar, carvoarias, pedreiras, olarias, emprego doméstico etc.

Por fim, outra contradição social cada vez mais vital: se os empregos se reduzem, aumentam os índices de desemprego, empobrecimento e miserabilidades social – realidade em que bilhões hoje vivem com menos de 2 dólares por dia. Se, como resposta, os capitais globais e suas transnacionais recuperarem os níveis de crescimento, como fez a China na última década, o aquecimento global nos converterá no mundo da torrefação. Trabalho e aquecimento global serão, portanto, os grandes dilemas do século 21.

27
fev
09

Arte de Rua e Contemporaneidade

Esta grande performance de Robert Muraine,popper de Los Angeles, só encontra pares nos melhores corpos de baile da dança contemporânea, o despojamento e a narrativa próprias da arte urbana, mas entendida estritamente enquanto arte de rua é a fonte de nosso tempo.

A rua é o espaço público, nossa ágora, descentralizada e transitória.  Não interessa mais o que é privado, nuclear e imutável.  As lições do movimento punk e atualmente do hiphop em escala global são estas, nele vemos as manifestações que expressam a nossa vida em comunidade, em que os momentos de nossas passagens se expressam e criam identificação pela obra de arte.

21
jan
09

Ilhas e pontes, diversidade e semântica

por:
Guilherme Marin e Paulo Edison de Oliveira Índio

Em tempos de organização social em rede através do constante aprimoramento tecnológico da internet, muitos conflitos de interesse se acumulam em torno do compartilhamento e da produção de conteúdos audiovisuais.  Para a discussão de temas para os quais ainda não temos solução foi criado o Fórum Internacional de Governança na Internet – IGF, que, em sua terceira edição no ano de 2008, foi realizado na cidade de Hyderabad, Índia.

O imaginário coletivo associa, muitas vezes, a internet a um modelo anárquico de livre expressão de idéias e intercâmbio de conteúdos, portanto, ao reunirmos certo grupo de pessoas que debatem acerca de bases para a constituição de regras logo vem à mente o modelo ocidental positivo de contrato social.

Generosa foi a curadoria das mesas de debate que buscou aprofundar três eixos temáticos embasados no desafio da inclusão do próximo bilhão de usuários globais na internet, nas dificuldades de infra-estrutura de acesso que essa inclusão implicará e, ainda, como se dará este processo no trato de tamanha diversidade humana em que um universo lingüístico não encontra representatividade de conteúdos frente a um número restrito de idiomas que prevalecem na web.

Entre as questões fundamentais estão algumas perguntas como, por exemplo: Incluir para quê? Inclusão a serviço de quem? A criação de infra-estrutura atende a demanda de que mercado? A padronização de um idioma serve aos interesses de quais áreas do conhecimento e países?

A humanidade imersa em crise econômica, histórica e social, vive um período em que o modelo de sociedade de consumo e o ideal de organização social se encontram  desacreditados, enquanto se assiste confortavelmente a banalização da vida e a desumanidade nas relações de mercado. As relações em rede, tanto econômica como social, fazem parte da sociedade moderna, não obstante podemos dizer que a web está consolidada como uma ferramenta essencial para a troca de conhecimento entre a diversidade de povos que constituem a humanidade.

Segundo previsões deveremos atingir a expressiva marca de um bilhão de usuários de internet em 2009, portanto, é o momento apropriado para refletir uma ética global a partir do que já observamos nestes primeiros passos de consolidação de redes sociais transnacionais e devemos nos perguntar sobre os desafios que deveremos enfrentar no processo de inclusão do próximo bilhão de usuários.  É importante discutirmos como podemos partilhar este espaço com os próximos que se juntarão a redes, produzirão textos, podcasts e vídeos distribuídos em canais globalmente conectados como o celular, a internet e a TV digital.

O encontro de culturas tão diversas produz choques, inevitavelmente, ao passo que perdemos a referência espacial entre ocidente e oriente, periferia ou centro, e passamos a nos identificar conceitualmente enquanto redes. A economia contemporânea, segundo o geógrafo Milton Santos, se organiza em rede, todavia, a demanda é definida do externo para o interno, ou seja, o mercado por meio da intensa propaganda massifica o ideal de sociedade construindo quase que hegemonicamente um modelo social padrão. É a supressão da cultura, do conhecimento local e a dependência externa que gera concentração de renda, apropriação de conhecimento, exploração e miséria.

O futuro nos obriga a buscar soluções que atuem em mediação com fins de equilibrar, em oposição ao modelo da negociação predominantemente utilizado na cultura ocidental, que favorece o aparecimento de assimetrias e pode facilmente ser observado pela análise da infra-estrutura de conexão das regiões mais carentes do planeta, cujas precariedades aumentam o custo por tecnologias alternativas mais sofisticadas.  Injustamente vivemos um modelo em que o custo de produtos e serviços é extremamente maior para os que menos podem pagar, o caso da maior parcela da população mundial. Devemos lembrar que exemplos não faltam de investimentos externos que geraram desenvolvimento e ao mesmo tempo dependência, padronizações de consumo e relacionamentos. Na America Latina, por exemplo, viveu-se um processo histórico de importação de tecnologia em invés de investimentos na produção tecnológica, tornando-a dependente dos acordos e regras da política econômica internacional que gera miséria e concentração de riquezas.  Não defendemos o isolamento econômico, investimentos internos devem ser mediados, existe a necessidade de pensar o que, como, quais as principais conseqüências sócio-ambiental e quem se beneficiará no longo prazo por esse investimento.

Afora lançarmos a atenção a aspectos técnico-físicos relativos a acessibilidade, nos obrigamos a enfrentar o desafio de produção de conteúdo que identifique realmente esta diversidade.  Neste aspecto a escolha da Índia como anfitriã do IGF também foi muito apropriada devido a grandeza populacional e da miscelânea cultural de seu bilhão de falantes distribuídos em diversas línguas particulares de cada região do país.

O rompimento do padrão espacial estabelecido aproxima o rural e o urbano, o materialismo e o espiritualismo, e nunca a noção de valor foi tão distanciada do ícone do dinheiro como no momento histórico em que vivemos.  Devemos avaliar a importância dos preciosos conhecimentos tradicionais de culturas longevas, sua oralidade, sua mitologia, línguas e artes, são de valor inestimável desenvolvido historicamente pela ancestralidade humana.  Neste novo contexto de rede global, o conceito de Humanidade ganha em significado.  Afinal, todos os homens e mulheres do planeta são partícipes desta comunidade chamada Humanidade?

O que atrai na internet é a possibilidade de acesso a conhecimentos construídos em um sem número de países.  A abrangência do banco de dados e de aplicativos disponibilizado terá relação direta com a capacidade de cada indivíduo de transitar em diversas línguas, hoje com preponderância para o inglês.

Países, como Burkina Faso, que adotaram como língua oficial um idioma diferente daquele que guarda o conhecimento tradicional de sua população, apresentam casos bastante sensíveis, visto que a maior parte da comunicação entre os cidadãos se dá pela tradição que detém o conhecimento oral de sua cultura.  Poucas são as línguas tradicionais que foram transcritas em caracteres compatíveis com as interfaces existentes.  Trata-se de disponibilizar conhecimento e esta é a base funcional da própria internet.

É necessário criar ciberespaços em que os usuários se identifiquem e se reconheçam.  Só assim é possível gerar interesse e proliferar a produção de conteúdo, localmente.  O recurso audiovisual assume fundamental importância enquanto instrumento de registro da oralidade e da linguagem corporal e é capaz de agregar comunidades, além de possibilitar a comunicação direta entre pontos isolados geograficamente, mas que partilhem identidades culturais. A internet é baseada não só na produção de conhecimento, mas na interatividade que constrói críticas e comunidades a partir dos conteúdos postados.

O receio reside no fato de sabermos se haverá catalização de esforços nesta direção ou se manteremos a lógica ocidental iluminista que busca estabelecer formas a priori que abranjam a totalidade das experiências.  Ora, num mundo em que a diversidade cultural está cada vez mais surpreendente, não é possível pensarmos em modelo totalizante porque assim caminhamos rumo à injustiça.

Nosso momento histórico exige respeito, solidariedade e ética.  Não banalizemos estas palavras, pois vivemos emergências ambientais, sociais e econômicas, em que o modo de vida global passa a fazer parte da cinética cotidiana individual de cada pessoa do planeta.  As relações pessoais em ambiente virtual devem buscar romper este padrão de massificação cultural que vivemos muitas vezes estimuladas por governos e empresas que têm dentro de si, na burocracia e no projeto industrial, a padronização de inúmeras repetições umas idênticas às outras a fim de ganhar eficiência, reduzir tempo e custos.

Pessoas não podem se resumir a fichas e processos.  O caminho para a preservação e difusão cultural deve respeitar um equilíbrio e propiciar a livre escolha do usuário da internet.  A falta de conteúdo em línguas tradicionais em Burkina Faso mantém as pessoas fora da internet.  O ensino de francês aos falantes de Mòore ou Dyula não resultará em um efeito inclusivo, mas na exclusão da identidade cultural burkinense da web e desta forma impossibilitará a apropriação do ciberespaço por sua população.

É necessário esforço governamental, de empresas e da sociedade civil organizada nesta trajetória de construção e colaboração para que conteúdos e aplicativos sejam disponibilizado de modo igualitário.

A sociedade local tem que participar e conseqüentemente se mobilizar para atuarem como protagonistas na construção de uma sociedade global mais justa com respeito a diferenças, sendo a internet uma ferramenta que possibilita a produção e acesso ao conhecimento de todos e a todos.

11
dez
08

tempo e espaço em Kant

A filosofia kantiana se distinguiu por observar e criticar as principais correntes dominantes do início do  século XVIII: o empirismo e o racionalismo dogmático.  Em comum estas correntes tinham o descrédito em qualquer possibilidade de fim último na razão que não fosse exterior.  Os primeiros os buscavam na natureza e os outros em um ser externo e supremo.

Em oposição entendiam a impossibilidade entre sensibilidade e entendimento coexistirem no processo de conhecimento, cada lado defendia arduamente apenas uma faculdade, enquanto kant não só admitia a compatibiliadade como construiu sua formulação de juízos sintéticos a priori a partir da conjugação destas duas faculdades mediadas pela imaginação.

A crítica da razão pura é dividida em duas partes: Estética Transcedental e Lógica Transcedental.

Interessa-nos neste post a estética e como Kant partiu do princípio metafísico dos conceitos de tempo e espaço para reforçar sua filosofia transcendental.

A maneira como indexamos conhecimento referente a qualquer objeto se dá por meio da intuição, mas esta só pode atuar quando se confronta com o objeto na subjetividade e, portanto, necessita de estímulos que o identifique de forma sensorial, enquanto matéria, para, na subjetividade, quando analisado do ponto de vista de sua forma, conhecermos ou associarmos conhecimento a este objeto.

Os conceitos de Espaço e Tempo, na concepção kantiana, devem ser compreendidos tanto  por sua objetividade quanto por sua subjetividades, sendo que o subjetivo é o que é encontrado a priori no sujeito, ou seja, é puro, independente de qualquer sensação e que, quando aplicado, sempre funciona.

Este conceito iluminista de que a razão conduz à verdade e à justiça herdado dos gregos caiu em uma armadilha ao não considerar a complexidade das relações humanas e por subestimar a força exercidas pela somatização das sensações no constructo do sujeito.

Kant partiu de premissas que hoje sabemos serem parciais de que o tempo é linear e o espaço tridimensional. Não mais desta forma construímos conhecimento a partir destes conceitos.

O sujeito contemporâneo não é mais transcendetal, mas um constructo1, plural e não mais totalizante. A razão iluminista se esgota quando exerce sua função prática de regular a moral das inter-relações humanas a partir de regras rígidas legisladoras universais. A filosofia atualmente tenta mapear as contradições do mundo de nosso tempo e buscar o que deu errado no projeto moderno, mas não se ampara em bases seguras com as que Kant proporcionou pois ainda não compreende a relação metafísica de tempo e espaço nas bases da elasticidade e da curvatura. Do mesmo modo como Kant sucedeu Newton, ainda não encontramos um par para suceder Einstein. Muito já foi produzido pela psicanálise e pela própria filosofia alemã frankfurtiana, mas a fusão ainda não consegue performar a fenomenologia do sujeito contemporâneo.

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1 Referência a Hansen, João Adolfo em Pós-moderno & Cultura

04
nov
08

sobre o trabalho do Instituto Voz ( ( ( iVoz ) ) )

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O iVoz nasceu com a imensa pretensão de realizar um movimento artístico-cultural na cidade de São Paulo.  Importante missão, que nunca pôde se apresentar como tal e portanto adquiriu uma retórica de nosso tempo que consiste em fomentar a formação de uma rede de artístas, arte-educadores e produtores culturais de todas as linguagens empunhando o estandarte da liberdade irrestrita de expressão, seja pela educação, cultura ou artes.

Faz-se necessário compatibilizar a linguagem utilizada, que hora se apropria de conceitos modernistas de delimitação de áreas do conhecimento e hora fala em uma ação em forma de movimento, em que o ícone, ou o ideal, é a válvula propulsora de uma expressão fragmentada, mas que se constitui, em todas as áreas da expressão,  resignificam-se e tranformam a cidade pela catárse da democratização irrestrita de conteúdos dispostos espontaneamente pelo espaço urbano e virtual.

O trabalho não é portanto um evento ou obra singular, mas uma intensa produção colaborativa que se potencializa mutuamente pela interconexão em camadas simbólicas.  É portanto em fluxos seu desenvolvimento e seu eco.

http://www.ivoz.org.br

31
out
08

InterConexões Humanas

Produção do 2o. PodCast:

INTERCONEXÕES HUMANAS

O projeto INTERCONEXÕES HUMANAS pretende se apropriar de formas simples de transmissão de dados pela internet e promover o encontro de artistas, arte educadores e produtores culturais dos países de língua portuguesa. A primeira interconexão entre Mozambique e Brasil ocorreu em 20/Set/08.  E criou o primeiro laço entre o hiphop dos dois países.

O programa que será gravado envolverá jovens mulheres ligadas ao movimento hiphop de das cidades de Maputo/MZ e São Paulo/BR a fim de apresentarem seus trabalhos, suas questões sociais e suas vozes.

Também será transmitido ao vivo pela IPTV USP, o link direto será disponibilizado na home no horário da transmissão por motivos técnicos.

A produção se realizou  por iniciativa do projeto Capulana Hip Hop que teve a ousadia de propor este programa.

Obrigado Iveth

Parceiros:

Cidade do Conhecimento 2.0 _link
CEB – Maputo (Centro de Estudos Brasileiros)
Capulana HipHop

21
out
08

a máscara e o homem

Do mesmo modo como a linguagem visual contemporânea trabalha com camadas sobrepostas de resignificação de conteúdo, a utilização de máscaras é bastante antiga na cultura global.  Muito se fala das divergências culturais e simbólicas entre oriente/ocidente, mas através da máscara encontramos um ponto comum da raiz humana que identificou este traço do julgamento estético que soma símbolos a fim de se alterar as relações entre os particulares e os universais.

Na Grécia Antiga, Téspis invadiu uma cerimônica religiosa com uma máscara de Dionísio e criou este dilema que fica entre a profanação do sagrado e a sacralização do humano.

Na filosofia da pós-modernidade existe a construção de termos que ajudam a reflexão deste fenômeno.  O pastiche e a esquizofrenia.  O primeiro trata de uma representação desinteressada, ou seja, sem compromisso com aquilo que é mimetizado.  A máscara é de Dionísio, mas não se espera que as pessoas acreditem que um dos deuses encontra-se entre eles, mas ainda assim alguns atributos simbólicos desta matriz divina são percebidos.  A esquizofrenia, do grego fender/clivar+espírito, ou seja, uma desordem da linguagem ocasionada a partir de uma deficiência infantil ao domínio da fala e da linguagem, segundo a psicanálise, parece ser incorporada na cultura de modo que sabemos lidar com esta sobreposição de referências humana/divina.

Aparece em voga este tipo de construção artística como um dos elementos da arte urbana e do design digital que se apropria de superfícies de linguagem dispostas de forma que desintegra o significado e o reconstrói continuamente, seja em sua relação com o espaço ou com o tempo.

Esta estrutura estética pode também extrapolar-se para a vida, em que o processo colaborativo de construção de conhecimento agrega estas diferentes camadas representativas da diversidade dos homens e que pode romper com o individualismo radical da década de 60, que sacraliza o gozo sem proibições, a cultura do tudo já, nas palavras de Lipovestky.

Tudo ainda não foi posto à mesa, mas algumas indicações já possibilitam a identificação de constelações que podem indicar para onde rumamos.  Resta caminhar.




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